domingo, 5 de junho de 2011

Enquadramento do Correio da Bahia sobre a Lavagem do Senhor do Bonfim no dia 8 de janeiro

Na análise da principal matéria referente à Lavagem do Bonfim, da edição do jornal do dia 7 de janeiro, observamos que a questão levantada foi à participação ou não dos jegues, cavalos e outros quadrúpedes na festa, em 2011, realizada dia 13.

Segundo dados do texto de Alexandre Lyrio, as ONGs Terra Verde Vida, Célula Mãe e Animal Viva, com a comissão de direitos dos animais da OAB-BA, consideraram que se os bichos participassem do festejo seriam submetidos a um grande estresse, além de esforço físico, sons, açoites e alta temperatura. Foram considerados culpados, Prefeitura de Salvador e Saltur. O lado religioso foi esquecido, tirando o foco do ato de os fiéis irem até a Colina Sagrada, no Bonfim.

A foto de um jegue enfeitado ilustrava a reportagem. Na legenda estava escrito - Presença dos enfeitados quadrúpedes está novamente ameaçada na Festa do Bonfim. Uma demonstração que o tema relevante dizia a respeito aos animais. Nesta primeira reportagem, intitulada Será que agora dá Zebra?, A guerra dos ambientalistas/OAB X Prefeitura/Saltur foi colocada em evidência.

Um dos artifícios usados pelos defensores dos bichos era a utilização do documentário Os Animais na Terra da Felicidade, que mostra imagens do festejo do ano passado. Com isso, os ambientalistas queriam comprovar a falta de fiscalização, e que os maus tratos eram evidentes. Uma ação civil pública foi impetrada para obter êxito na proibição dos bichos, tendo como réus a Prefeitura e a Saltur.

Ao ler o texto, percebemos que a preocupação no tratamento é com os animais na tradicional festa. Enquanto, a importância do ato religioso em si não foi questionada em momento algum no texto referido.

O outro lado da história da participação dos quadrúpedes na festa do Bonfim teve um pequeno destaque na edição do dia 7 de janeiro. Sob o título Isso é moral de jegue, a matéria secundária trata do posicionamento dos proprietários de carroças e donos de eqüídeos, diferentemente do texto principal, que só levou em consideração a luta dos ambientalistas contra os possíveis maus tratados aos animais.

Foi levantado o tradicionalismo das carroças na festa como folclore no Estado. Os carroceiros consideraram o impedimento um absurdo, até mesmo porque a história de prêmios com a ajuda dos animais não é esquecida pelos antigos participantes.

Ao contrário do que os ambientalistas tentaram demonstrar com o documentário, Valter Lesa, carroceiro citado na matéria, afirmou que nunca viu nenhum animal sendo mau tratado que lhe chamasse atenção. O carroceiro relata que a proibição é um insulto ao folclore baiano. Algo compreensível, por ser um tema do seu próprio interesse.

O dono do jegue Pagode, Móises Cafezeiro, também participou da reportagem como incentivador de uma reunião entre carroceiros e cavaleiros de todo o Estado, sob a alegação de tentar reverter liminar dos ambientalistas.

Os donos dos animais se organizavam para construir documento declarando que o tratamento dado aos quadrúpedes é correto. Ao informar que oferecem água para os animais beberem, os proprietários dos jegues e carroças visam se eximir de qualquer responsabilidade apontada pelos antigos participantes.

Ao contrário do que os ambientalistas tentaram demonstrar com o documentário, Valter Lesa, carroceiro citado na matéria, afirmou que nunca viu nenhum animal sendo mau tratado que lhe chamasse atenção. O carroceiro relata que a proibição é um insulto ao folclore baiano. Algo compreensível, por ser um tema do seu próprio interesse.

O dono do jegue Pagode, Móises Cafezeiro, também participou da reportagem como incentivador de uma reunião entre carroceiros e cavaleiros de todo o Estado, sob a alegação de tentar reverter liminar dos ambientalistas.

Os donos dos animais se organizavam para construir documento declarando que o tratamento dado aos quadrúpedes é correto. Ao informar que oferecem água para os animais beberem, os proprietários dos jegues e carroças visam se eximir de qualquer responsabilidade apontada pelos ambientalistas.

Ao relatar o sofrimento dos animais Os Animais na Terra da Felicidade, mesmo em tamanho menor em relação às outras, o texto trata com riqueza de detalhes o que é passado pelos jegues, mulas e cavalos no percurso da Festa do Bonfim.
O filme relata, em 22 minutos, os excessos cometidos contra os puxadores de carroças, além conter depoimentos de juristas, advogados, veterinários, criadores de animais e da própria população.

Nas primeiras matérias desta edição, não é observada que o lado de cada um dos interessados na briga: ambientalistas/OAB X Prefeitura/Saltur/proprietários dos animais está separada. No entanto, o tema em questão, o tratamento dado aos animais, só é bem discutido em uma matéria sem destaque – Maus tratos em vídeo.

Conceito da teoria do enquadramento


A primeira contribuição considerada mais relevante do conceito de enquadramento na comunicação foi dada por Tuchman (1978). As notícias são um recurso social cuja construção limita um entendimento analítico da vida contemporânea. (TUCHMAN apud PORTO, 2004a, p. 79). O enquadramento imposto pelas notícias é definido e construído pelos fatos reais.

Ainda em formação, a teoria do enquadramento, frame ou framing, tem como objetivo estudar a forma que os meios de comunicação de massa enquadram para os receptores o conteúdo agendado pela mídia. Tudo isso é feito por meio dos jornalistas na escolha dos temas durante a construção de seus textos.

O conceito de enquadramento é um avanço considerável na análise de conteúdo das mensagens da mídia e das notícias (GUAZINA apud BRITO, 2007, p. 19).

Os enquadramentos são princípios de organização que governam os eventos sociais e nosso envolvimento neles (GOFFMAN apud PORTO, 2004a, p. 78).

Para Goffman (1986), enquadramentos funcionam como marcos interpretativos mais gerais, que são construídos socialmente permitindo que as pessoas deem sentido aos eventos e as situações socais (PORTO, 2004a).

Gutmann (2006) explica como o conceito de framing tem sido usado para argumentar de que maneira os enquadramentos dados aos temas agendados pela mídia impactam nos quadros de referência utilizados pelo público na interpretação dos assuntos. Segundo a definição de Shen (2004), a opinião pública e suas interpretações sobre eventos agendados pela mídia podem ser moldadas pelo enquadramento (IYENGAR apud GUTMANN, 2006, p. 31).

O enquadramento deve ser considerado como um instrumento para que o papel da mídia na construção do que é real possa ser examinado de forma
empírica (TANKARD apud PORTO, 2004a, p. 76). A partir da idéia de que o framing envolve seleção e ênfase, Entman (1993) afirma que enquadrar é eleger alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-los mais salientes em um texto comunicativo, promovendo uma definição de problema particular, interpretação causal, avaliação moral e/ou um tratamento recomendado para o item descrito.

Para o autor, “o enquadramento de uma notícia é realmente uma impressão de poder”, ou seja, o framing armazena a identidade dos autores ou dos interesses que competiram no ato de dominar o texto (ENTMAN, 1993, p. 5).

Os esquemas de processamento de informação, a exemplo da construção do conteúdo jornalístico através de uma “embalagem” particular, são caracterizados pelo framing (ENTMAN apud GUTMANN, 2006, p. 52).

Correia (2011) aponta o formato de enquadramento usado por alguns profissionais de comunicação: o enquadramento estratégico. Políticos, bloggers, editoralistas e líderes de opinião são apontados utilizam a estratégia do enquadramento como forma de execre poder e influenciar sobre as audiências para elas aceitarem as interpretações para favorecer seus interesses e objetivos. (CORREIA, 2011, p. 51).

Com amplas definições do enquadramento, Gitlin (1980) destaca de forma clara e sistemática o seu conceito para a teoria (apud PORTO 2004a, p. 80):

Os enquadramentos da mídia [..] organizam o mundo tanto para os jornalistas que escrevem relatos sobre ele, como também, em um grau importante, para nós que recorremos às suas notícias. Enquadramentos da mídia são padrões persistentes de cognição, interpretação e apresentação, de seleção, ênfase e exclusão, através dos quais os manipuladores de símbolos organizam o discurso, seja verbal ou visual, de forma rotineira. (GILTLIN, 1980, p7) (tradução do autor).


O jornalista tem o poder nas mãos ao transmitir um acontecimento ao público. Entman (1993) determina quatro funções para o enquadramento: definir problemas, diagnosticar causas, fazer julgamentos morais e sugerir soluções. “Os comunicadores fazem enquadramentos intencionalmente ou inconscientes decidindo o que dizer, guiados pelos frames (chamados frequentemente esquemáticos) que organizam seus sistemas de opinião” (ENTMAN, 1993, p. 52). “O enquadramento determina se a maioria das pessoas percebe e como elas compreendem e lembram de um problema, da mesma forma que determina a maneira que avaliam e escolhem a forma de agir sobre ele” (ENTMAN apud GUAZINA, 2001, p. 275).

Correia (2011) considera que os enquadramentos (frames) são avaliados com o auxílio das analogias dos enquadramentos na imagem (fotográfica, cinematográfica, etc). Para o autor, a escolha da inclusão ou a exclusão desses mecanismos ajudam no enquadramento dado pelos veículos. O enquadramento é usado como um tipo de mensagem para ordenar ou organizar a percepção do observador (CORREIA, 2001, p. 49).

Colling (2002) considera que o poder do framing analisado por Entman (1993) é a forma de pensar o mundo, o que faz o enquadramento ser uma ferramenta empregada por aqueles que têm poder para transmitir o seu jeito de pensar para os demais. Para o autor, o framing é como temos que pensar os temas já estabelecidos pela agenda.

Outros elementos também devem ser analisados no estudo do framing, a exemplo dos atores envolvidos, além de quem tem o poder de resolver o problema, palavras-chave, conceitos, símbolos e imagens visuais que estão presentes nos textos jornalísticos (COLLING, 2002, p. 115).

Duas classificações de enquadramento são sugeridas por Porto (2004b, p. 69): o interpretativo e o noticioso. Para ele, pode se considerar como interpretativo quando padrões de explicação de temas e/ou eventos políticos a partir de agentes sociais e políticos externos à prática jornalística são avaliados de maneira particular. A mídia pode ou não incorporar as interpretações em um contexto mais amplo.

O enquadramento identificado como noticioso configura aos padrões de apresentação, seleção e ênfase feitas pelo jornalista nos textos jornalísticos. Ao analisar coberturas de campanhas de jornais, o autor observou que a classificação proporciona uma reflexão para descobrir em que medida a mídia enfatizou temas ou se concentrou nas estratégias dos candidatos e nos resultados de pesquisa de intenções de voto (PORTO, 2004b, p. 71).

O autor afirma que,

o conceito de enquadramento permite entender o processo político como uma disputa sobre qual interpretação prevalecerá na formação, desenvolvimento e resolução de controvérsias políticas. O conceito permite ainda ressaltar como estas controvérsias se desenvolvem, não através da apresentação de “fatos” ou “informação”, mas sim através de interpretações que são utilizadas para avaliar estes eventos ou temas políticos (PORTO, 2002, p. 93).

Para o pesquisador, no Brasil, o enquadramento é utilizado diversas vezes pelos estudiosos com o intuito de fazer uma análise das relações entre mídia e política, a exemplo de coberturas e campanhas eleitorais, além da mídia e movimentos sociais comparando o jornalismo político brasileiro com o feito em outros países.

Cinco elementos são destacados na identificação do enquadramento durante uma reportagem – palavras-chave, metáforas, conceitos, símbolos e imagens enfatizadas na narrativa jornalística (Entman apud Gutmann, 2006, p. 32). No telejornalismo, essas características são mais evidentes, quando o framing pode ser identificado pela observação de imagens visuais, além exposição de palavras repetidas no texto midiático com o objetivo de deixar mais visíveis algumas idéias no lugar de outras.

O campo da psicologia cognitiva também é outra fonte importante sobre enquadramento. Kahneman e Tversky (apud PORTO, 2002a, p. 79)conduziram os conceitos atribuindo que as mudanças na formulação de problemas podem causar variações significativas nas preferências das pessoas. Eles sugerem que a manipulação da informação factual e o enquadramento dado às informações podem alterar os resultados no processo de formação de preferências.

O impacto dos framings da mídia, na forma da interpretação e da discussão feita pelo público, é objeto de estudo de diversos pesquisadores, como Gamson e Modigliani (apud GUTMANN, p. 35). Segundo os autores, a
quantidade de dispositivos utilizados no conteúdo midiático contribui para indicar a existência da embalagem do fato reproduzido para a audiência. “As notícias televisivas são repletas de metáforas, frases de impacto e outros símbolos destinados a oferecer um modo mais curto e frágil de construir a narrativa” (GAMSON e MODIGLIANI, 1989, p. 153 apud GUTMANN, 2006, p. 35).

Becker (2006) considera que a questão da democratização de um país não se coloca apenas na esfera da agenda oficial, também se evidencia na força de organização e expressão de grupos e movimentos sociais. O campo da comunicação transcende os estudos dos meios e pode produzir um conhecimento específico sobre a sociabilização e a produção de sentidos na atualidade, decorrente dessa nova realidade histórica. Os serviços da indústria da comunicação, a regulação da mídia e as novas tecnologias de informação deveriam atender prioritariamente ao interesse público, privilegiando o conhecimento e não apenas o mercado. Se os cidadãos não têm acesso à diversidade de opiniões e interpretações, o dilema da democracia não tem solução.

Porto (2002) divide o enquadramento em quatro tipos de enquadramento que permitem identificar como a mídia “contribui para privilegiar determinadas interpretações hegemônicas da realidade”: o restrito, os plurais - aberto e fechado - e o episódico. (PORTO, 2004b, 70). Para o autor, esta análise funciona de maneira sistemática a recepção e os efeitos do enquadramento (PORTO, 2002, p. 97).

Para o enquadramento ser considerado restrito, o texto tem uma única interpretação do veículo de comunicação sobre o fato. Plural-fechado quando tem mais de uma interpretação e uma delas ser privilegiada e apresentada como mais correta. No casal de plural-aberto, são apresentadas mais de uma interpretação, sendo que nenhuma das opções são confirmadas como mais válida (correta). O enquadramento é episódico no momento em que ocorre o texto não possui interpretação. Neste caso, o texto se limita em relatar o fato apenas. O estilo escolhido é o descritivo. (PORTO, 2002, p. 93).

Breve histórico do Correio da Bahia


O Correio da Bahia é um jornal diário que circula em Salvador, fundado oficialmente por Antônio Carlos Magalhães em 20 de dezembro de 1978. Mas, o veículo começou a circular apenas em janeiro. Faz parte do mesmo grupo responsável pela Rede Bahia¹ de Televisão.

Em 2010, foi considerado o segundo na preferência dos leitores baianos, ficando atrás do jornal A Tarde². Segundo o IVC, o Correio da Bahia teve 34.681 de média de circulação por exemplar, uma alta de 77% em relação ao ano anterior. O aumento se iniciou com as mudanças. No final de agosto de 2008, quando passou a ser denominado de apenas Correio, o impresso foi redesenhado com uma reforma gráfica e editorial.

O formato do jornal passou de standard para berliner. Atualmente, apresenta conceitos mais modernos do jornalismo mundial, com páginas 100% coloridas e paginação contínua. A nova estrutura também se relaciona com o Correio da Bahia online, ou seja, em uma plataforma digital, o site www.correio24horas.com.br obtém o mesmo rigor editorial do impresso.

A primeira proposta editorial do impresso era de ser um jornal limpo, objetivo e honesto (TEIXEIRA apud Brito, 2006, p. 11). O objetivo nos primeiros anos de circulação era atrair leitores (público), com predominância de ilustração.

Nos primeiros meses de circulação, o jornal obteve tiragem de 36 mil exemplares por dia por seguir uma proposta de cobertura política discreta, buscando se firmar no mercado. Após a primeira mudança editorial, no final de 1979, o veículo passou por alterações, reduzindo a tiragem para 11 mil.

A imagem de ACM sempre foi muito forte. O Correio nasceu como porta voz do fundador do jornal, tendo como identidade marcante política e favorável às idéias e interesses dele, de acordo com o diretor de redação do jornal Demóstenes Teixeira (LIMA apud BRITO, 2006, p. 12). Para ACM, o objetivo era promover, abertamente, a imagem dos candidatos que eram filiados ao político.

O jornal passou por algumas mudanças ao longo dos anos. Com o intuito de abandonar a postura ofensiva adotada, no final dos anos 80, ocorreu a primeira. Em 1990, com a segunda alteração editorial, ampliou a cobertura para o nível nacional.

Com o slogan “acima de tudo informação”, em 1993, o Correio teve mais uma transformação editorial. Foi feita uma campanha em rádio, TV, jornais e outdoors, para atrair e agradar o público. Também foi lançado o caderno Folha da Bahia, composto com matérias sobre arte, cultura e lazer. O objetivo era oferecer novas opções aos leitores, além de se fortalecer no mercado da Bahia. (TEIXEIRA apud Brito, 2006, p. 13).

¹Rede Bahia é um grupo empresarial composto por 14 empresas, que atua dentro e fora do Estado nas áreas Mídia, Conteúdo e Entretenimento, Desenvolvimento de Novos Negócios, além do setor de Construção Civil.

²O jornal A Tarde foi fundado em outubro de 1912. Obteve uma média de 42,2 mil exemplares, no consolidado do ano de 2010, de acordo com o IVC, ficando em primeiro lugar em circulação na Bahia até agosto.

FESTA DO SENHOR DO BONFIM X BONFIM LIGHT


Paralelo aos festejos religiosos da Festa do Senhor do Bonfim, existe a festa "profana", marcada pela presença de barracas de comidas típicas e bebidas, da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da praia até o alto da Colina Sagrada. Baianos e turistas fazem a caminhada até o alto da colina em ritmo de festa.

Mas em 1998, a parte carnavalesca da festa sofreu uma intervenção imposta pela Prefeitura Municipal e pela Arquidiocese de Salvador que, numa tentativa de defender as tradições históricas da festa, promoveram um afastamento dos trios elétricos e caminhões de blocos alternativos que acompanhavam o cortejo desde a Avenida Contorno, muitas vezes sequer chegando à metade do percurso e de certa forma desviando e desvirtuando o caráter religioso do dia, promovendo um mini-carnaval com direito a todos os excessos que lhe são peculiares.

Como alternativa para os foliões e empresas envolvidas na promoção da parte profana da festa, empresários no meio do entretenimento baiano junto com a Prefeitura de Salvador criaram o Bonfim Light.

A festa que acontece todo ano no Bahia Marina, local privilegiado de Salvador, conta com cerca de 50 mil foliões, tornando-se um verdadeiro carnaval antecipado em Salvador.

O Bonfim Light virou um evento turístico, com altos investimentos e atraindo mais turistas do que a própria festa religiosa do Senhor do Bonfim. Um dos destaques da festa é a banda de axé baiana, Asa de Águia. Todo ano a banda tem presença marcada, sendo o anfitrião da Festa.

Os ingressos têm valores altíssimos que variam de R$ 100,00 (pista) até R$ 400,00, valor do camarote, na mão de cambistas.

Com a criação do Bonfim Light ouve uma melhora na festa profana, pois as pessoas até 1997 ficavam no meio da rua, bebiam, aconteciam muitas brigas, crimes, assaltos. Com o Bonfim Light amenizou um pouco a “baderna na rua”.

Só que o Bonfim Light trouxe para a tradicional festa do Senhor do Bonfim um grande problema: a desvalorização dos jovens de Salvador, pelo padroeiro de sua cidade. Hoje os jovens de Salvador e turistas não dão importância a grandiosidade que é a Festa do Senhor do Bonfim e sim, ao Bonfim Light, onde estão as maiores bandas de axé da Bahia.

O Bonfim Light para os jovens, está marcado na agenda da cidade das festas pré-carnavalescas. Até turistas vem a Salvador, em busca de ver a banda Asa de Águia no Bonfim Light e não para conhecer a tradição do padroeiro baiano.

O que se vê hoje em dia na Festa do Senhor do Bonfim são as pessoas mais velhas, antigas, acompanhando a tradição de fé ao subir a colina sagrada e em contraposto os jovens participam da parte profana, que é o Bonfim Light.

Um breve histórico da Lavagem do Bonfim

A homenagem ao Senhor do Bonfim é muito antiga na Bahia, embora haja controvérsias sobre sua origem portuguesa ou africana. Esta cerimônia acontece na segunda quinta - feira do ano em Salvador. Um imenso cortejo de devotos percorre dez quilômetros de Salvador, partindo do Largo da Conceição até o Largo do Bonfim. Baianas vestidas a caráter trazem moringas e potes cheios de água perfumada para a lavagem simbólica das escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim (MENDES, 2007).

Atualmente, cantos e hinos religiosos misturam-se ao som dos trios elétricos na festa, que é o maior exemplo do sincretismo religioso na Bahia, pois o ritual homenageia também Oxalá (Obatalá), que no candomblé é identificado como o Senhor do Bonfim. Os participantes bebem, comem e se divertem durante o percurso, antecipando o carnaval de rua de Salvador (MENDES, 2007).

A lavagem do Senhor do Bonfim é um momento de festejo religioso popular envolvendo várias camadas da sociedade baiana e de presença marcante de africanos e seus descendentes. Considerando “[...] que a relação com o sobrenatural e todas as crenças e cerimônias necessárias para que ela se estabeleça são formas de religião, podemos dizer que esta era um elemento central da festa [...]” (Souza, 2005, p. 45 apud MENDES, 2007).

A religiosidade é uma forma encontrada por homens e mulheres de construírem códigos, regras e leis que lhes possibilitem garantir a sobrevivência e a manutenção de seu grupo. A cultura tem dinâmica própria e acontecem de formas variadas de acordo com o grupo cultural, contexto histórico, político e social em que se vive (MUNANGA, 2006, apud MENDES, 2007).

A capela do Senhor do Bonfim começou a ser construída em 1745 e foi inaugurada no mesmo ano. Originalmente a igreja era lavada por escravos, permitido em um ato singelo da Igreja aos escravos. Aos poucos o ato da lavagem se popularizou e se transformou numa festa, mobilizando milhares de pessoas. O culto ao Senhor do Bonfim começa a assumir extraordinária importância em Salvador (MENDES, 2007).


Segundo Soares (apud MENDES,2007) a festa teria se originado do culto a Oxalá. Essa era uma cerimônia realizada às escondidas e fora da cidade, devido às perseguições por parte das autoridades. Com o retorno dos Voluntários da Pátria este ritual teria sido juntado ao da lavagem, por gratidão, por estes negros e mestiços, dando notoriedade, no espaço urbano, ao culto a Oxalá.

Para Mendes (2007), a tradição da lavagem teria assumido tais características devido à promessa de um soldado que lutou na Guerra do Paraguai. A autora considera que este tipo de promessa religiosa era comum na cultura luso-brasileira.

A festa do Senhor do Bonfim teve seu começo no mês de janeiro. Iniciava-se no segundo domingo depois do Dia dos Santos Reis. Na quinta-feira anterior ao início da novena acontecia a lavagem do santuário. Era organizada pela igreja e os escravos dos senhores da região faziam a lavagem da capela. A partir do século XIX, principalmente de meados do século, a festa assumiu características diferentes, tendo uma maior participação de negros que implantaram seus costumes.

Os negros pediam permissão para fazerem parte da festa do Senhor do Bonfim utilizando seus instrumentos e cantando em suas línguas maternas (VERGER, 1987, apud MENDES, 2007)).

Os nagôs, que no século XIX, formavam a maioria dos escravos baianos, celebravam em suas terras o culto ao Orixá criador, a quem atribuíam à condição de filho do Deus supremo e o status de Pai Soberano entre as outras divindades. (VERGER, 1987, apud MENDES, 2007)).
Prestavam-lhe um culto especial em colinas fazendo procissão com potes de águas para lavagem do lugar sagrado. O Senhor do Bonfim, orago da sagrada colina, de um templo onde se celebrava com escorrer de água um rito periódico, é Jesus Cristo, o filho de Deus, invocado como Pai Soberano de todos os Santos. (SERRA, 1995, apud MENDES, 2007)).

Desta forma, a cerimônia da lavagem do Bonfim trouxe à memória desses escravos nagôs da Bahia os ritos lustrais, praticados por seus antepassados, característicos do culto a Oxalá.

Mas essa memória não é vista aqui como um resgate de um determinado tipo de culto praticado em África. Ela tem uma função social. Ela ocorre no presente e é englobante e hierarquizante, pois nestas festas populares religiosas as comunidades estreitam seus laços e mantêm sua identidade de grupo, celebrando também sua vida cotidiana. É o momento em que esses africanos e afro-descendentes constroem uma identidade coletiva e se reconhecem enquanto comunidade solidária, mesmo que hierarquizada, pois as tensões e conflitos são camuflados (LUCENA, 2004, apud MENDES, 2007).

Esse culto vivo se dá na memória coletiva dessa parcela da população que participa do ritual da lavagem. A memória é um fator importante para se conhecer o passado, segundo Lowental (1998). Para ele, o importante na memória é sua natureza coletiva e o valor do conhecimento que traz. O passado relembrado é ao mesmo tempo individual e coletivo.

Para o conhecimento do passado são importantes os hábitos das pessoas e suas lembranças. As lembranças de uns confirmam e podem dar continuidade às de outros.
A lavagem das escadarias da igreja de Nosso Senhor do Bonfim, que passou a ocorrer no final do século XIX, é uma festa popular e lugar de memória, identidade e comemoração. É um momento de oposição à vida ordinária e excludente da sociedade baiana. (MENDES, 2007).

Mas percebe-se que ao longo dos anos, toda essa tradição história foi perdendo a sua força. Hoje em dia são poucos devotos que ainda tem a tradição de subir até a Colina Sagrada para receber a benção do Senhor do Bonfim. O lado profano da festa ao longo dos anos, foi tirando o foco das pessoas, como acontece hoje em dia com a criação do Bonfim Light em 1998, explicado no tópico seguinte.